CVM em guerra de narrativas: presidente interino acusa BC de tentar 'ficar melhor na foto' e diz que reguladora está 'sob ataque'
O presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, acendeu um sinal de alerta sobre uma batalha institucional em curso. Em declaração pública, ele afirmou que a CVM está “sob ataque”, com outros agentes do sistema financeiro tentando atribuir à autarquia a “culpa” por episódios recentes. O comentário, feito durante o Congresso de Fundos de Investimento da OAB-RJ no Rio, teve um alvo claro: o Banco Central, que estaria “tentando ficar melhor na foto” às custas da reputação da CVM.
O contexto imediato é a crise do banco Master e a pressão regulatória que se seguiu. Em janeiro, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sugeriu que a fiscalização dos fundos de investimento – atribuição histórica da CVM – deveria migrar para o BC. A declaração de Accioly surge como uma defesa pública da agência e de seu corpo técnico, cujos esforços ele elogiou. No entanto, a própria CVM, sob sua gestão, determinou a formação de um grupo de trabalho para elaborar um relatório sobre sua atuação no caso Master, um movimento que, mesmo sem críticas explícitas, sinaliza um exame interno e pontos a serem aprimorados.
O conflito aberto entre os dois principais reguladores do mercado financeiro brasileiro expõe uma disputa por poder, atribuições e narrativa. A fala de Accioly vai além de uma simples defesa corporativa; é um reconhecimento tácito de que a CVM está sob intenso escrutínio político e midiático. A tentativa do BC de ampliar seu raio de ação, aproveitando-se de falhas percebidas, coloca pressão sobre o modelo de regulação segmentada e pode redefinir o equilíbrio de forças no sistema, com impactos diretos na supervisão de fundos e na confiança do mercado.