Europa apostou no GNL para escapar da Russia, mas agora enfrenta risco geopolítico no Estreito de Ormuz e ataques ao Catar
A invasão russa à Ucrânia forçou a Europa a reescrever sua cartilha energética. Em menos de três anos, o gás natural liquefeito (GNL) passou de alternativa marginal a pilar central da matriz importadora do bloco. Segundo dados citados pela pesquisadora Agathe Demarais, do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), o GNL já representa quase metade das importações de gás da União Europeia — uma proporção que era de apenas 20% em 2021. A guinada reduziu a dependência direta de hidrocarbonetos russos, mas criou uma nova vulnerabilidade: a concentração de rotas e fornecedores em zonas de alta tensão geopolítica.
O problema agora se tornou mais agudo. Antes do início do conflito no Irã, a expectativa da Comissão Europeia era que novas ofertas de GNL entrassem em operação ainda em 2025 e em 2027, permitindo ao bloco eliminar gradualmente os últimos vínculos com a Russia. Porém, ataques iranianos ao complexo de Ras Laffan, no Catar — a maior instalação de produção de GNL do mundo — trazem incerteza grave sobre a continuidade dessas entregas. O Estreito de Ormuz, por onde passa parcela significativa do tráfego de GNL rumo à Europa, também enfrenta risco elevado de interrupção em meio à escalada regional.
A situação expõe a fragilidade estrutural de uma estratégia que trocou uma dependência por outra. Noruegueses e catarianos substituem russos, mas o risco de origem mudou de莫斯科paraTeerã. Demarais advierte que a janela para a independência energética europeia pode se fechar antes do previsto, caso os ataques continuem ou se expandam para infraestrutura crítica no Golfo Pérsico.