Fraude no setor segurador português: de custo residual a variável central de resultados com margens sob pressão
O setor segurador português está a confrontar-se com uma realidade que tardou em reconhecer: a fraude deixou de ser uma perda residual para se transformar numa variável central de performance financeira. Durante anos, as seguradoras trataram o controlo de fraude como uma função de suporte — importante, mas subordinada ao core business. Prioridades como redes de distribuição, crescimento comercial, gestão de clientes e eficiência operacional dominavam a agenda estratégica. O controlo de fraude era visto como um custo inevitável, necessário para proteger margens, mas não para criá-las. Essa visão está agora desactualizada, e as consequências começam a fazer-se sentir num mercado já fragilizado.
A evolução do risco financeiro global, documentada por entidades como a INTERPOL, demonstra uma mudança estrutural que o mercado português não pode ignorar. O investimento pesado em Customer Relationship Management (CRM), marketing, canais digitais e experiência do cliente foi feito sob a premissa de que a fraude seria gerida de forma reactiva. Mas a fraude cresceu em sofisticação e volume, transformando-se num dreno directo para a rentabilidade. Num contexto em que as margens técnicas do mercado segurador português já operam sob pressão significativa, cada fraude não detectada amplifica o risco financeiro e compromete a sustentabilidade do negócio.
A implicação é clara: as seguradoras que continuarem a tratar o controlo de fraude como uma função secundária correm o risco de ver a sua competitividade erodida. A fraude não é apenas um problema de perdas — é um factor determinante de resultados. Reavaliar prioridades, investir em capacidades de detecção e integrar o controlo de fraude na estratégia central deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade de sobrevivência num mercado com margens cada vez mais apertadas.